O triângulo da Espiritualidade

14/12/2011 10:26

 

Este triângulo equilátero que expressa a espiritualidade cristã, tem seus ângulos intimamente relacionados e assinalando entre si um caminho: o crescimento pessoal leva a uma experi6encia pessoal e profunda de Deus que, por sua vez, conduz ao compromisso. Nem sempre o itinerário pessoal segue esta trajetória... mas ele só será pleno se chegar ao equilíbrio dos três elementos.

A tarefa da espiritualidade será levar a pessoa a crescer, para que viva a experiência de Deus no seguimento de Jesus Cristo e isto a coloque no horizonte da justiça e do agir histórico.

A dimensão do auto-conhecimento, da aceitação do que se é e do crescimento pessoal, leva também a desenvolver um jeito próprio nas relações interpessoais. Este trabalho pessoal passa pela descoberta das partes vulneráveis da personalidade e deve chegar também à consciência das potencialidades que cada pessoa carrega em si mesma. Este caminho leva a pessoa a descobrir no mais íntimo de si mesma se encontra Deus. Esta certeza impulsiona a vivência de um tipo de espiritualidade encarnada e muito concreta, potencializada pela teologia da encarnação e que leva à integração de tudo o que é humano como experiência onde Deus se revela: o corpo, a afetividade, a sexualidade, a experiência da maternidade e da paternidade, a amizade e o encontro, o encontro e a solidariedade, a consciência familiar...a inter-relacionalidade universal de todas as pessoas com todos os seres criados, a dimensão do cuidado que é essencial a tudo o que vive.

A dimensão da Experiência de Deus supõe o caminho feito por Jesus Cristo e a ação do Espírito de Deus. O jeito de ser de Jesus nos dá uma série de atitudes e de preferência: o Reino, tendo como destinatários os pobres e pecadores; e um tipo de oração muito especial. A experiência de Deus está assim aberta a um compromisso com os prediletos de Jesus e nos revela o Deus de Jesus como alguém que nos ama com amor incondicional. Daqui nasce uma espiritualidade que nos liberta dos ídolos e nos coloca com simplicidade e sinceridade na beira do caminho de Jesus. A experiência pessoal da ternura de Deus e da sua misericórdia alegre é o que fundamentalmente cura e regenera as pessoas e faz com que elas se levantem e se redimam, colocando-se a serviço de quem tem necessidade.

A dimensão do compromisso histórico provém das duas forças anteriores. Lança as pessoas, com preocupação humana e divina, na busca de estruturas sócio-históricas mais humanas, como anúncio do Reino. Isto faz com que a tarefa de comprometer-se com a erradicação do sofrimento e da injustiça no mundo não seja apenas uma tarefa humana, mas sobretudo uma ação mística: ao servir os necessitados, servimos o próprio Jesus. Assim, a atuação ideologizada fica descartada pela raiz. Nas pessoas necessitadas que servimos, nos vemos também, pela Graça de Deus, curados de nossas feridas pessoais, segundo os cantos do Servo Sofredor (Is. 53,5).

Apoiar-se apenas no espiritual sem atender ao psicológico, implica, em princípio, uma ingenuidade que esquece o papel do inconsciente. Ficar apenas no binário psicologia-espiritualidade, é a tentação tão propagada pela Nova Era e pelas ‘religiões civis’ou ‘invisíveis’, que podem encerrar as pessoas numa capa de auto-realização e de um tipo de religiosidade que des-historiza. Por outro lado, a espiritualidade que se apóia neste triângulo, é a espiritualidade que se nos revela na experiência de Jesus que cura e levanta, perdoa e convida ao seu seguimento, compromete e lança ao serviço do Reino.

Quando ressaltamos e potencializamos a dimensão humana, pretendemos que primeiro se construa um substrato pessoal sadio, para que aí possa agir a graça.

Não é possível falar de espiritualidade e nem é possível convidarmos uma pessoa para o encontro pessoal com Deus se previamente não ajudarmos a pessoa a olhar para dentro de si mesma, a encontrar-se com ela mesma num trabalho profundo de auto-exploração e se não a ajudarmos a ter uma experiência pessoal e profunda de oração e se ela não experimentar algum tipo de compromisso na transformação do mundo.

A espiritualidade deve pois acompanhar o crescimento pessoal... acompanhar a experiência de Deus... acompanhar o compromisso com o Reino!

Ao trabalhar o humano, a espiritualidade deve ajudar a pessoa a descobrir suas feridas e vulnerabilidades e um esquema de crescimento contínuo, levando a pessoa a beber no seu próprio poço e ajudando a descobrir-se como um ser solidário e a encontrar Deus no mais íntimo de si mesma.

Ao trabalhar a experiência de Deus, a espiritualidade limpa as falsas imagens inconscientes de Deus, desata os nós da culpabilidade doentia, ajuda a descobrir a centralidade de Deus na vida e acompanha o a descoberta do caminho pessoal que leva a Deus através do discernimento. Isto necessariamente leva ao compromisso com o mundo e ao mesmo tempo possibilita a experiência pessoal da incondicionalidade do amor de Deus, que é o remédio essencial que cura e salva.

Ao trabalhar a dimensão do compromisso histórico, a espiritualidade acompanha o processo de como traduzir em solidariedade e compromisso a energia reorientada que nasce das feridas curadas... e ajuda a que a pessoa, a partir da sua dor pessoal, entenda as dores de seus semelhantes. A pessoa coloca assim o melhor de si para erradicar o sofrimento e, a partir de sua experiência de Deus, capta que é precisamente na dor e no sofrimento que Jesus mais se revela. Isso impulsiona para a urgência de resgatar os crucificados da história e anima para concretizar a necessidade de devolver a beleza, a bondade e a gratuidade ao mundo.

Assim, a espiritualidade acompanha a pessoa para que a partir da integração do psicológico e da experiência de Deus brote uma palavra efetiva para com os empobrecidos e uma palavra afetiva para com os excluídos.