III. O ESPÍRITO SANTO, INTÉRPRETE DA ESCRITURA

14/12/2011 09:49

 

 
109 Na Sagrada Escritura, Deus fala ao homem à maneira dos homens. Para bem interpretar a 
Escritura é preciso, portanto, estar atento àquilo que os autores humanos quiseram realmente afirmar e 
àquilo que Deus quis manifestar-nos pelas palavras deles.
110  Para descobrir a intenção dos autores sagrados, há que levar em conta as condições da época 
e da cultura deles, os "gêneros literários" em uso naquele tempo, os modos, então correntes, de sentir, falar e 
narrar. “Pois a verdade é apresentada e expressa de maneiras diferentes nos textos que são de vários 
modos históricos ou proféticos ou poéticos, ou nos demais gêneros de expressão."
111 Mas, já que a Sagrada Escritura é inspirada, há outro princípio da interpretação correta, não 
menos importante que o anterior, e sem o qual a Escritura permaneceria letra morta: "A Sagrada Escritura 
deve também ser lida e interpretada com a ajuda daquele mesmo Espírito em que foi escrita". O Concílio 
Vaticano II indica três critérios para uma interpretação da Escritura conforme o Espírito que a inspirou
112 1. Prestar muita atenção "ao conteúdo e à unidade da Escritura inteira". Pois, por mais diferentes 
que sejam os livros que a compõem, a Escritura é una em razão da unidade do projeto de Deus, do qual 
Cristo Jesus é o centro e o coração, aberto depois de sua Páscoa.
O coração de Cristo designa a Sagrada Escritura, que dá a conhecer o coração de Cristo. O coração 
estava fechado antes da Paixão, pois a Escritura era obscura. Mas a Escritura foi aberta após a Paixão, 
pois os que a partir daí têm a compreensão dela consideram e discernem de que maneira as profecias 
devem ser interpretadas.
113  2. Ler a Escritura dentro "da Tradição viva da Igreja inteira". Consoante um adágio dos Padres, 
"Sacra Scriptura principalius est in corde Ecclesiae quam in materialibus instrumentis scripta a sagrada
Escritura está escrita mais no coração da Igreja do que nos instrumentos materiais. Com efeito, a Igreja leva em sua Tradição a memória viva da Palavra de Deus, e é o Espírito Santo que lhe dá a interpretação
espiritual da Escritura ("...segundo o sentido espiritual que o Espírito dá à Igreja. 
114 3. Estar atento "a anagogia da fé " Por "anagogia da fé" entendemos a coesão das verdades 
da fé entre si e no projeto total da Revelação.

Os SENTIDOS DA ESCRITURA

115  Segundo uma antiga tradição, podemos distinguir dois sentidos da Escritura: o sentido literal e o 
sentido espiritual, sendo este último subdividido em sentido alegórico, moral e analógico. A concordância 
profunda entre os quatro sentidos garante toda a sua riqueza à leitura viva da Escritura na Igreja.
116 O sentido literal. É o sentido significado pelas palavras da Escritura e descoberto pela exegese 
que segue as regras da correta interpretação. "Omnes sensus fundantur super litteralem  - Todos os sentidos 
(da Sagrada Escritura) devem estar fundados no literal”.
117 O sentido espiritual. Graças à unidade do projeto de Deus, não somente o texto  da Escritura, 
mas também as realidades e os acontecimentos de que ele fala, podem ser sinais.
1. O sentido alegórico. Podemos adquirir uma compreensão mais profunda dos acontecimentos
reconhecendo a significação deles em Cristo; assim, a travessia do Mar Vermelho é um sinal da vitória de 
Cristo, e também do Batismo. 
2. O sentido moral. Os acontecimentos relatados na Escritura devem conduzir-nos a um justo agir. Eles 
foram escritos "para nossa instrução" (1Cor 10,11)
3. O sentido anagógico. Podemos ver realidades e acontecimentos em sua significação eterna, 
conduzindo-nos (em grego: "anagogé"; pronuncie "anagogué") à nossa Pátria. Assim, a Igreja na terra é sinal 
da Jerusalém celeste.
118  Um dístico medieval resume a significação dos quatro sentidos:
Littera gesta docei, quid credas allegoria, moralis quid agas, quo tendas anagogia.
A letra ensina o que aconteceu; a alegoria, o que deves crer; a moral, o que deves fazer; a 
anagogia, para onde deves caminhar.
119 "É dever dos exegetas esforçar-se, dentro dessas diretrizes, por entender e expor com maior 
aprofundamento o sentido da Sagrada Escritura, a fim de que, por seu trabalho como que preparatório, 
amadureça o julgamento da Igreja. Pois todas estas coisas que concernem à maneira de interpretar a 
Escritura estão sujeitas, em última instância, ao juízo da Igreja, que exerce o divino ministério e mandato do 
guardar e interpretar a Palavra de Deus"
Ego vero Evangelio non crederem, nisi me catholicae Ecclesiae commoveret auctoritas.
Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja católica"

IV  O CÂNON DAS ESCRITURAS

120  Foi a Tradição apostólica que fez a Igreja discernir que escritos deviam ser enumerados lista 
dos Livros Sagrados". Esta lista completa é denominada "Cânon" das Escrituras. Ela comporta 46 (45, se 
contarmos Jr e Lm juntos) escritos para o Antigo Testamento e 27 para o Novo Testamento.
Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juizes, Rute, os dois livros de Samuel, os dois 
livros dos Reis, os dois livros  das Crônicas, Esdras e Neemias, Tobias, Judite, Ester, os dois livros dos
Macabeus, Jó, os Salmos, os Provérbios, o Eclesiastes (ou Coélet), o Cântico dos Cânticos, a Sabedoria, o 
Eclesiástico (ou Sirácida), Isaías, Jeremias, as Lamentações, Baruc, Ezequie l, Daniel, Oséias, Joel, Amós, 
Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias, para o Antigo Testamento; os 
Evangelhos de Mateus, de Marcos, de Lucas e de João, os Atos dos Apóstolos, as Epístolas de São Paulo aos 
Romanos, a primeira e a segunda aos Corintios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, a 
primeira e a segunda aos Tessalonicenses, a primeira e a segunda a Timóteo, a Tito, a Filêmon, a Epístola 
aos Hebreus, a Epístola de Tiago, a primeira e a segunda de Pedro, as três Epístolas de João, a Epístola de 

Judas e o Apocalipse, para o Novo Testamento.

O  ANTIGO TESTAMENTO

121 Antigo Testamento é uma parte indispensável da Sagrada Escritura. Seus livros são divinamente 
inspirados e conservam um valor permanente, pois a Antiga Aliança nunca foi revogada.
122 Com efeito, "a Economia do Antigo Testamento estava ordenada principalmente para preparar 
a vinda de Cristo, redentor de todos". "Embora contenham também coisas imperfeitas e transitórias", os livros 
do  Antigo Testamento dão testemunho de toda a divina pedagogia do amor salvífico de Deus: "Neles 
encontram-se sublimes ensinamentos acerca de Deus e uma salutar sabedoria concernente à vida do homem, 
bem como admiráveis tesouros de preces; nestes livros, enfim está latente o mistério de nossa salvação"
123  Os cristãos veneram o Antigo Testamento como verdadeira Palavra de Deus. A Igreja sempre 
rechaçou vigorosamente a idéia de rejeitar o Antigo Testamento sob o pretexto de que o Novo o teria feito 
caducar (marcionismo)