III. AS CARACTERÍSTICAS DA FÉ
14/12/2011 10:01
A FÉ É UMA GRAÇA
153 Quando São Pedro confessa que Jesus é o Cristo, Filho do Deus vivo, Jesus lhe declara que esta
revelação não lhe veio "da carne e do sangue, mas de meu Pai que está nos céus". A fé é um dom de Deus,
uma virtude sobrenatural infundida por Ele. "Para que se preste esta fé, exigem-se a graça prévia e
adjuvante de Deus e os auxílios internos do Espírito Santo, que move o coração e o converte a Deus, abre os
olhos da mente e dá a todos suavidade no consentir e crer na verdade."
A FÉ É UM ATO HUMANO
154 Crer só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo Mas não é menos
verdade que crer é um ato autenticamente humano. Não contraria nem a liberdade nem a inteligência do
homem confiar em Deus e aderir às verdades por Ele reveladas. Já no campo das relações humanas, não é
contrário à nossa própria dignidade crer no que outras pessoas nos dizem sobre si mesmas e sobre suas
intenções e confiar nas promessas delas (como, por exemplo, quando um homem e uma mulher se casam),
para entrar assim em comunhão recíproca. Por isso, é ainda menos contrário à nossa dignidade "prestar,
pela fé, à revelação de Deus plena adesão do intelecto e da vontade" e entrar, assim, em comunhão íntima
com ele.
155 Na fé, a inteligência e a vontade humanas cooperam com a graça divina: "Credere est actus
intellectus assentientis veritati divinae ex imperio voluntatis a Deo motae per gratiam - Crer é um ato da
inteligência que assente à verdade divina a mando da vontade movida por Deus através da graça".
A FÉ E A INTELIGÊNCIA
156 O motivo de crer não é o fato de as verdades reveladas aparecerem como verdadeiras e
inteligíveis à luz de nossa razão natural. Cremos "por causa da autoridade de Deus que revela e que não
pode nem enganar-se nem enganar-nos". "Todavia, para que o obséquio de nossa fé fosse conforme à
razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados das provas exteriores de
sua Revelação. Por isso, os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da
Igreja, sua fecundidade e estabilidade "constituem sinais certíssimos da Revelação, adaptados à inteligência
de todos", "motivos de credibilidade" que mostram que o assentimento da fé não é "de modo algum um
movimento cego do espírito".
157 A fé é certa, mais certa que qualquer conhecimento humano, porque se funda na própria
Palavra de Deus, que não pode mentir. Sem dúvida, as verdades reveladas podem parecer obscuras à
razão e à experiência humanas, mas "a certeza dada pela luz divina é maior que a que é dada pela luz da
razão natural. "Dez mil dificuldades não fazem uma única dúvida.
158 "A fé procura compreender": E característico da fé o crente desejar conhecer melhor Aquele
em quem pôs sua fé e compreender melhor o que Ele revelou; um conhecimento mais penetrante despertará
por sua vez uma fé maior, cada vez mais ardente de amor. A graça da fé abre "os olhos do coração" (Ef. 1,18) para uma compreensão viva dos conteúdos da Revelação, isto é, do conjunto do projeto de Deus e dos
mistérios da fé, do nexo deles entre si e com Cristo, centro do Mistério revelado. Ora, para "tomar cada vez
mais profunda a compreensão da Revelação, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa continuamente a fé por
meio de seus dons. Assim, segundo o adágio de Santo Agostinho, "eu creio para compreender, e compreendo
para melhor crer".
159 Fé e ciência. "Porém, ainda que a fé esteja acima da razão, não poderá jamais haver
verdadeira desarmonia entre uma e outra, porquanto o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé
dotou o espírito humano da luz da razão; e Deus não poderia negar-se a si mesmo, nem a verdade jamais
contradizer a verdade." "Portanto, se a pesquisa metódica, em todas as ciências, proceder de maneira
verdadeiramente científica, segundo as leis morais, na realidade nunca será oposta à fé: tanto as realidades
profanas quanto as da fé originam-se do mesmo Deus. Mais ainda: quem tenta perscrutar com humildade e
Perseverança, os segredos das coisas, ainda que disso não tome consciência, e como que conduzido pela
mão de Deus, que sustenta todas as coisas, fazendo com que elas sejam o que são."
A LIBERDADE DA FÉ
160 Para que o ato de fé seja humano, "o homem deve responder a Deus, crendo por livre vontade.
Por conseguinte, ninguém deve ser forçado contra sua vontade a abraçar a fé. Pois o ato de fé é por sua
natureza voluntário". "Deus de fato chama os homens para servi-lo em espírito e verdade. Com isso os
homens são obrigados em consciência, mas não são forçados... Foi o que se patenteou em grau máximo em
Jesus Cristo." Com efeito, Cristo convidou à fé e à conversão, mas de modo algum coagiu. "Deu testemunho
da verdade, mas não quis impô-la pela força aos que a ela resistiam. Seu reino... se estende graças ao
amor com que Cristo, exaltado na cruz, atrai a si os homens."
A NECESSIDADE DA FÉ
161 E necessário, para obter esta salvação, crer em Jesus Cristo e naquele que o enviou para nossa
salvação "Como, porém, "sem fé é impossível agradar a Deus' (Hb 11,6) e chegar ao consórcio dos seus
filhos, ninguém jamais pode ser justificado sem ela, nem conseguir a vida eterna, se nela não permanecer até
o fim" (Mt 10,22; 24,13".
A PERSEVERANÇA NA FÉ
162 A fé é um dom gratuito que Deus concede ao homem. Podemos perder este dom inestimável; São
Paulo alerta Timóteo sobre isso: 'Combate... o bom combate, com fé e boa consciência; pois alguns,
rejeitando a boa consciência, vieram a naufragar na fé" (1Tm 1,18-19). Para viver, crescer e perseverar até
o fim na fé, devemos alimentá-la com a Palavra de Deus; devemos implorar ao Senhor que a aumente; ela
deve "agir pela caridade" (Gl 5,6), ser carregada pela esperança e estar enraizada na fé da Igreja.
A FÉ - COMEÇO DA VIDA ETERNA
163 A fé nos faz degustar como por antecipação a alegria e a luz da visão beatífica, meta de nossa
caminhada na terra. Veremos então a Deus "face a face" (1Cor 13,12), "tal como Ele é" (1Jo 3,2). A fé já é,
portanto, o começo da vida eterna:Enquanto desde já contemplamos as bênçãos da fé, como um reflexo no
espelho, é como se já possuíssemos as coisas maravilhas que um dia desfrutaremos, conforme nos garante
nossa fé.
164 Por ora, todavia, "caminhamos pela fé, não pela visão" (2Cor 5,7), e conhecemos a Deus "como
que em um espelho, de uma forma confusa..., imperfeita" (1Cor 13,12). Luminosa em virtude daquele em que
ela crê, a fé é muitas vezes vivida na obscuridade. A fé pode ser posta à prova. O mundo em que vivemos
muitas vezes parece estar bem longe daquilo que a fé nos assegura; as experiências do mal e do sofrimento,
das injustiças e da morte parecem contradizer a Boa Nova; podem abalar a fé e tornar-se para ela uma
tentação.
165 É então que devemos nos voltar para as testemunhas da fé: Abraão, que creu, "esperando
contra toda esperança" (Rm 4,18); a Virgem Maria, que na "peregrinação a fé[fca63] " foi até a "noite da fé", comungando com o sofrimento de seu Filho e com a noite de seu túmulo e tantas outras testemunhas da
fé: "Com tal nuvem de testemunhas ao nosso redor, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve,
corramos com perseverança para o certame que nos é proposto, com os olhos fixos naquele que é autor e
realizador da fé, Jesus" (Hb 12,1-2[a66] ).